Alimentação / Suplementação

Radicais livres produzido durante o exercício ajudam na melhora da performance atlética

Estamos numa mudança de paradigma tão estonteante quanto aquela mudança de conceito sobre o lactato (quando o lactato virou o mocinho, ao descobrir que na verdade ele retarda o processo de fadiga). Estonteante porque (além da mudança de paradigma) esta informação evitará com que você gaste “rios de dinheiro” para comprar suplementos antioxidantes (os quais ainda são defendidos por alguns profissionais como os “mocinhos” que combatem os “vilões”- radicais livres).

Um recente estudo [1] avaliou o estresse oxidativo (leia-se também como radicais livres) produzido pelo exercício físico em 100 voluntários (todos jovens com idade, composição corporal, hábitos alimentares e capacidades físicas analisadas no estudo semelhantes, veja a Tabela 1). Os pesquisadores do estudo perceberam que a produção de marcadores de radicais livres durante o exercício físico tinha uma variação muito grande (de 83%; essa variação é frequente nesse tipo de avaliação, mas sempre foi ignorado por outros estudos).  Interessantemente, esses pesquisadores tiveram a ideia de estratificar os 100 voluntários em três grupos (grupo 1= de baixa produção de marcadores de radicais livres durante o exercício físico; grupo 2= de produção moderada de marcadores de radicais livres durante o exercício físico; grupo 3= de produção elevada de marcadores de radicais livres durante o exercício físico).  Em seguida, os pesquisadores submeteram os três grupos num mesmo programa de treinamento (45 min de cicloergômetro à 70% da Wmáx., três vezes por semana). 

De forma impressionante, os indivíduos do grupo 2 e 3 (moderate e high na Figura 1,2 e 3) obtiveram os melhores resultados tanto para melhora do próprio sistema antioxidante (Fig 1) diminuição dos marcadores de estresse oxidativo (Fig 2), como melhora do VO2máx, capacidade de endurance (no teste de time trial de 15 minutos, após 45 min de exercício contínuo no cicloergômetro à 70% do Wmáx.) e potência anaeróbia (wingate, teste de 30 segundos), veja a Fig 3 e Tabela 1.

O que estes dados querem dizer?

Que a produção de radicais livres durante a prática de exercício físico tem um papel crucial nas adaptações ao treinamento (é preciso que haja uma elevada produção de radicais livres durante o exercício para que você melhore a sua performance). Este estudo [1] não fez uso de suplementação de antioxidantes, apenas estratificou os indivíduos em três níveis (ou seja, de acordo com a produção de marcadores de radicais livres durante o exercício), com isso observou que as menores adaptações ocorreram nos indivíduos que produziam poucos marcadores de espécies reativas de oxigênio (e mais interessantes, não houve efeito deletérios na performance e no próprio sistema antioxidante devido a elevada produção de radicais livres durante o exercício).

Já havia sido demonstrado em estudos anteriores que a suplementação de antioxidantes mitigavam as adaptações ao treinamento físico (veja um post nosso sobre o tema). Ainda restavam dúvidas se o efeito era do próprio efeito antioxidante do suplemento ou de outros efeitos das moléculas, haja vista que muitos suplementos antioxidantes possuem um efeito pleiotrópico, no organismo. Nesse sentido, esse estudo [1] reafirma que a produção de radicais livres é necessária para que haja as adaptações do treinamento físico, como já foi demonstrado de forma convincente em ratos [4]

Você pode estar se perguntando, “…então devo cortar o uso de alimentos que contenham antioxidantes?”. A resposta é tome cuidado com os alimentos industrializados, principalmente àqueles com elevadas concentrações de substâncias antioxidantes (que são utilizados como aditivo, para conservação dos alimentos). Os radicais livres são essenciais para diversos processos biológicos, muito além dos mencionados neste texto (mas a literatura científica ainda não sabe qual o valor ideal/saudável no organismo, como sãos nos casos dos valores da pressão arterial e glicemia, por exemplo). Por isso, a literatura científica ainda não sabe o quanto devemos ingerir de antioxidantes num dia. Por enquanto sabemos que o uso excessivo de vitaminas antioxidantes por atletas (A, C e E, por exemplo) não são saudáveis.

Outro ponto importante (que será foco de futuras investigações científicas) são os estudos emergentes que sugerem que a ingestão excessiva de antioxidantes pela população não atleta (a partir de alimentos industrializados e de suplementos alimentares) induzem a obesidade (é isso mesmo que você leu). Evidências científicas vêm demonstrando que o uso excessivo de antioxidantes pode diminuir a oxidação de gordura e carboidrato (ou seja, diminuição do gasto calórico), a secreção de leptina (hormônio relacionado à saciedade) e a  sensibilidade à insulina, com isso induzindo a obesidade, para mais detalhe sugiro a leitura do artigo de Mangge et al. [2] (sabemos que o exercício físico combate essas alterações negativas). Ou seja, a produção de radicais livres é tal qual como a pressão arterial, glicemia e colesterol, pois  o nosso organismo precisa de valores ideais para promover a sua regulação de forma saudável.

Então é para parar com a suplementação de antioxidantes?

A menos que você tenha uma condição clínica (na qual seu médico lhe receitou a partir de avaliações clinicas) não há justificativa científica (de acordo com o conhecimento atual) que sustente o uso sistemático de substâncias antioxidantes para combater os radicais livres (como já comentamos, ainda não se sabe quais os valores ideais de radicais livres, nem sabemos qual a nossa necessidade diária de ingestão de antioxidantes). Interessantemente, é comum observar a prescrição indiscriminada de suplementos antioxidantes sem se quer ter uma avaliação clínica prévia. Isso é o mesmo que lhe prescrevessem sinvastatina para diminuir o seu colesterol, sem que houvesse qualquer avaliação para diagnosticar os seus níveis de colesterol. Isso faz sentido?

Concluindo, se você é praticante de exercício físico regular, saiba que esta é a melhor estratégia para melhorar o seu sistema antioxidante [1,3]. Se você é um indivíduo saudável com uma boa alimentação, o uso de suplementos antioxidantes irá atrapalhar a aquisição dos benefícios do exercício físico.

Referências:

1-Margaritelis, Nikos V., et al. “Adaptations to endurance training depend on exercise‐induced oxidative stress: exploiting redox inter‐individual variability.” Acta Physiologica (2017).

2- Mangge, H., et al. “Influence of Antioxidants on Leptin Metabolism and its Role in the Pathogenesis of Obesity.” Advances in experimental medicine and biology 960 (2017): 399.

3- de Sousa, C.V., et al., The Antioxidant Effect of Exercise: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Medicine, 2016: p. 1-17

4- Henríquez-Olguín, C., et al., NOX2 inhibition impairs early muscle gene expression induced by a single exercise bout. Frontiers in Physiology, 2016. 7: p. 282.

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