Emagrecimento

O uso de anticoncepcionais hormonais na população atlética e vantajoso?

O uso de anticoncepcionais hormonais (ACH) é uma prática comum, inclusive, é apreciada pela população atlética não apenas pela eficácia no controle da natalidade, mas também porque fornece um ciclo consistente de 28 dias eliminando a variabilidade do comprimento do ciclo e irregularidades menstruais em geral3.  Estudos têm investigado os efeitos do uso dos ACH na população atlética em diversas outras variáveis de interesse para mulheres atletas como composição corporal, força, capacidade aeróbia, recuperação e adaptação ao treinamento assim como a performance atlética. Vejamos se é vantajoso o uso desse tipo de contraceptivos hormonais.

ACH e gordura corporal

Não há estudos que verificaram diretamente o uso de ACH na composição corporal em atletas, mas estudos com população de não atletas sugerem que há ganhos de gordura (2-3% num período de 6-12 meses) com o seu uso (principalmente o injetável- acetato de medroxiprogesterona), quando comparados aos contraceptivos não hormonais (isso equivale a ~2 kg para uma mulher de 70kg). Ainda não se sabe o quanto o uso de ACH pode impactar no ganho de gordura em atletas, as quais estão envolvidas em prática treinamento físico, mas caso o ganho de gordura seja significativo poderá ocorrer implicações negativas na performance atlética ou até mesmo dificuldade para manter o peso em esportes peso dependentes (veja uma post nosso sobre o papel do tecido adiposo na performance atlética)1.

Ganho de massa muscular

O uso de ACH pode reduzir a massa magra (músculo) em mulheres não atletas, quando comparados ao uso de contraceptivos não hormonais. A perda de massa magra pode chegar a 3,5% num período de um ano (ou seja, 2,5 kg numa mulher de 70kg). Estudo com atletas sugerem que o ganho de massa muscular é menor em atletas que tomam ACH e que esse menor ganho em massa muscular pode impactar significantemente na performance atlética1. Não só na performance, mas dificuldade também pode implicar no ganho de massa muscular em atletas bodybuilding (p. ex.) que precisam de ganhos expressivos.

Ganho de força

Os dados com relação a força são conflitantes, enquanto uns estudos demonstram que a força é prejudicada outros estudos não demonstram diferenças1 É sugerido que o uso de ACH pode diminuir a força devido ao seu efeito na redução do estrogênio e testosterona livre1. Nesse sentido, atletas que participam de competições, p.ex. powerlifting, devem fazer avaliações constantes para verificar uma possível efeito ergolítico do ACH.

Capacidade aeróbia

Os dados também são conflitantes, enquanto alguns estudos desmontam diminuição na capacidade aeróbia (VO2máx) e que essa capacidade é recuperada quando o tratamento com ACH é cessado, outros estudos demonstram que não há diminuição da capacidade aeróbia1. É sugerido que o uso prolongado (6 meses)  do ACH  trifásico  diminui o VO2má em atletas treinadas. 

Um medida fácil de perceber se a capacidade aeróbia está afeta é medir a percepção subjetiva de esforço (PSE; escala de Borg,p.ex.), pois ha evidências que o uso de ACH aumenta a PSE (o que pode está relacionado ao menor consumo de oxigênio no limiar anaeróbio).

Lesões

tendão

Fig.1. Retirada de HASEN e Kjaer 2

Uma revisão2 sobre a diferença de gênero no risco de lesões de ligamento sugere que mulheres sob tratamento de ACH podem sofrer maiores riscos de lesões tendíneas e ligamentares pelo fato do uso de ACH diminuir a reposta adaptativa do colágeno ao treinamento (Fig.1). Cabe salientar que dados epidemiológicos não sustentam (além dos dados serem escassos) sobre o fato do uso de ACH ser um mediador de lesões2 .   

Recuperação entre as sessões de treinamento 

É comum estudos que apresentam dados do uso de ACH e maiores concentrações de creatina quinase (CK) plasmática (ou seja, maior dano muscular) após uma sessão de exercício físico4. Esse estudo demonstrou que após 5 dias de uma sessão de step, o grupo ACH ainda estava aumentado os valores de CK plasmática. Isso sugere que o uso de ACH pode prejudicar a recuperação e diminuir tolerância ao treinamento físico.

ACH PCR

Fig 2. Figura A (inflamação), retirada de Cauci et al. 3. Figura B (estresse oxidativo), retirada de Cauci et al. 5

Estudos com atletas italianas verificaram que atletas que usavam ACH estavam sob maior grau de inflamação (Fig. 2) do que as atletas que não usavam3. Além disso, o estresse oxidativo também era maior nas atletas que usam ACH5. Esses dados também sugerem que mulheres que usam ACH obtêm menores benefícios anti-inflamatórios derivado da prática crônica do treinamento físico. Nesse sentido, esses dados também sugerem que, por exemplo, o efeito cardioprotetor e a diminuição do risco de desenvolver outras doenças crônico degenerativa são mitigadas quando as praticantes regulares de exercício físico fazem uso concomitante de ACH.

Conclusão

É importante que seja colocado na balança os prós e os contras do uso de ACH em mulheres atletas (e, principalmente, nas mulheres não atletas). Cabe salientar que apresentamos aqui estudos que sugerem que há efeitos ergolíticos do uso de ACH. Há estudos que sugerem que o uso de ACH não afeta negativamente os parâmetros citados neste post, o que sugere que a reposta do ACH nas respostas adaptativas ao treinamento podem estar relacionada ao tempo de uso (londo período), tipo de ACH ou até mesmo a intensidade as cargas do treinamento não são compatíveis ao ACH (para mais detalhes). Nesse sentido, se você (ou a sua atleta) faz uso de ACH é importante que seja avaliado (com e sem o uso de ACH) os paramentos de performance (se há evolução ou se sua performance está muito aquém dos seus pares), da composição corporal e marcadores (CK, IL-6 ou PCR) que podem dar um norte mais detalhado de como o organismo está reagindo ao uso de ACH.

Referências

1- MARTIN, Daniel, & ELLIOTT-SALE, Kirsty. (2016). A perspective on current research investigating the effects of hormonal contraceptives on determinants of female athlete performance. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, 30(4),

2- Hansen, Mette, and Michael Kjaer. “Sex hormones and tendon.” Metabolic Influences on Risk for Tendon Disorders. Springer International Publishing, 2016. 139-149.

3-Cauci, Sabina, Maria Pia Francescato, and Francesco Curcio. “Combined oral contraceptives increase high-sensitivity C-reactive protein but not haptoglobin in female athletes.” Sports Medicine 47.1 (2017): 175-185.

4- Thompson, Heather S., et al. “The effects of oral contraceptives on delayed onset muscle soreness following exercise.” contraception 56.2 (1997): 59-65.

5-Cauci, Sabina, et al. “Oxidative Stress in Female Athletes Using Combined Oral Contraceptives.” Sports Medicine-Open 2.1 (2016): 40.

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