Editorial

O campeonato brasileiro de futebol é dominado por técnicos com formação em educação física

Por Elias de França & Vinicius Barroso Hirota

Dias atrás li um post intitulado:Chegou a vez dos ex-jogadores como técnicos. Hora de superar os acadêmicos”. Também vi uma outra declaração de Renato Gaucho numa reportagem (aos 8 min de vídeo) que questionava: “..o que os técnicos acadêmicos têm de diferente de nós?” (referindo-se à ex-atletas que são técnicos sem nenhuma formação acadêmica). Não vamos teorizar (muito) sobre esse assunto, vamos discutir os fatos.

Classificação brasileirão 2016

Classificação brasileirão 2016

O técnico do seu time é formando em educação física? Saiba que os times melhores colocados (os seis primeiros) no campeonato brasileiro 2016 tinham técnicos com formação em educação física, como responsáveis pela sua colocação na tabela. Interessantemente, a participações de ex-atletas como técnico nos dez primeiros colocados ocorreram no 7º e 9º colocado. O Corinthians (7º colocado), que havia sido campeão brasileira em 2015 tinha como técnico um educador físico (Tite, que saiu para a seleção Brasileira em 06/2016) dando a vaga de técnico para um ex-atleta (Cristóvão Borges, que foi demitido 3 meses depois, com 19 rodas no comando). Depois a equipe voltou a mão de Oswaldo de Oliveira (por nove jogos) e posteriormente (e até o momento) é dirigido por Fábio Carille (ambos formados em educação física).  O 9º colocado (Grêmio) teve na primeira parte um educador físico (Roger Machado Marques), que em setembro deixou a equipe depois da metade do campeonato (em 8º lugar) e na final da Copa do Brasil para um ex-atleta (Renado Gaucho, que terminou campeão da copa do Brasil e na 9ª colocação no brasileirão).  Já o 11º colocado (São Paulo) que preferiu jogar a temporada com ex-atletas, como técnicos (Ricardo Gomes e Pintado). A restante da lista do brasileirão (>11º) têm uma “dança das cadeiras” maluca, entre educadores físicos e ex-atletas.

Atualmente, para ser técnico em futebol, de acordo com a lei nº 8.650, de 20 de abril de 1993, não há a obrigatoriedade legal de ser formado em educação física. Entretanto, de acordo com os resultados do campeonato brasileiro de 2016 a obrigatoriedade do ponto de vista de resultados é um fato, caso se busque os melhores resultados!

Fazendo um paralelo, ser técnico de futebol (só por ser um ex-atleta) seria o mesmo que um ex-paciente de câncer passasse a prescrever tratamentos para outros pacientes com câncer. Neste caso, o médico (com a sua ampla formação em fisiologia humana e metabolismo das disfunções do organismo) seria de escolha opcional pelos hospitais, consequentemente dos pacientes que envolvidos nesta esfera?

Quem espera que Rogério Ceni seja um mito como técnico desconhece do amplo e vasto conhecimento que um ex-atleta1 (com conhecimento prático) formado em Educação Física2 (conhecimento teórico) possui (que é o caso dos primeiros colocado do brasileirão 2016).  

O futebol caminhou para numa nova era, chegamos na era da ciência (intervenção baseado em evidência) e há já superamos a era dos “curandeiros” (intervenção bteoria-praticaaseado na tentativa e erro). Doravante, o diferencial para obter bons resultados é ter um treinador (que além do conhecimento tático/prático do jogo em si, adquirido através de formação acadêmica e cursos de alto calibre, por que não estágios e visitas técnicas nos clubes de ponta) saiba também da importância (e como administrar e saber aplicar) as informações advindas da sua equipe multidisciplinar (p. ex., fisiologista, fisioterapeuta, preparador físico, nutricionista, psicólogo, biomecânica, área da tecnologia e robustez estatística).

Não sabemos se o Rogério Ceni sabe, realmente, da importância disso (trabalhar com base em evidência científica). Mas sabemos que a formação do bacharel em educação física e esporte, além das especializações continuadas na área (pelo menos em bons cursos e instituições de respeito) os capacitam no sentido de trabalhar a partir de evidência científicas, por exemplo, como reconhecer o que cada área do conhecimento pode nos oferecer de benefícios (trabalho multidisciplinar, para não chegar ao ponto absurdo de dispensar os psicólogos, como no caso do Dunga).

Pensando em saber utilizar informações científicas, será que um ex-atleta sabe dos métodos de prevenção de lesão? Sabe encaixá-lo dentro do programa de treinamento para melhora das capacidades físicas (p.ex., velocidade, agilidade, força, etc.), na qual buscam concentrar os esforços junto ao princípio da especificidade, relativas a este multifacetado esporte? Sabe como avaliar se a carga de trabalho está excessiva ou aquém do necessário? Sabe periodizar? Sabe avaliar o estado de motivação e de estresse do atleta? Sabe administrar tudo isso respeitando a agenda de jogos? Se não sabe, tem que ter noção da importância de avaliar estas variáveis e ter uma equipe competente para isso. Se não sabe, irá reproduzir intuitivamente o que vivenciou com seus técnicos, correndo séries riscos de cometer erros. Se a equipe não tem uma equipe multidisciplinar, dificilmente irá se manter na série A (ou chegar até lá). Portanto, avaliar, observar e prescrever são tarefas incansáveis, uma vez que a individualidade biológica do atleta advém de sua necessidade e potencialidades. Imagine o Real Madri com CR7 lesionado, ou o Barcelona com o Neymar o Messi lesionado. Quem não lembra do Valdivia na Palmeiras (excelente jogador, mas sempre se machucando).

1Não precisa ter jogado profissionalmente, mas precisa de conhecimento prático da modalidade;

2O nome não precisa ser necessariamente educação física, por exemplo, existe cursos com nomes de ciências do esporte, motricidade humana, etc..

 

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