Alimentação / Suplementação

Quando o uso de anti-inflamatório pós-treino pode atrapalhar os ganhos de força e de massa muscular

O uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs; Tabela 1) para combater aquela dor muscular tardia pós-treino é controverso. Enquanto em idosos o uso de AINEs parece ser benéfico, para ajudar adaptação ao treino (ganho de forca, de massa muscular e óssea), por outro lado, em jovens o seu uso pode prejudicar tais adaptações.

Os AINEs são conhecidos por inibir a atividade das ciclo-oxigenases 1 e 2 (COX-1 e 2) (Tabela 1). A COX-1 e 2 fazem as conversões das prostaglandinas (PG) em suas diversas formas ativas, que desempenham diversos papeis em nosso organismo como recrutamento de macrófagos, neutrófilos e mastócitos (e diversas citocinas pró-inflamatórias, como IL-6, TNF e IFN-γ)  para áreas lesionadas, levando a um processo inflamatório que geralmente é acompanhado de dor.

Tem sido demonstrado [1] em modelo animal, que ao inibir a COX-2 (com o uso de AINEs) há a inibição da produção da PGE2 (prostaglandina E2) em reposta a injuria muscular. Foi demonstrado no experimento que a PGE2 além de exerce um papel inflamatório no tecido muscular (e que esta inflamação é necessária para que haja uma posterior recuperação saudável) também exerce um papel crucial na proliferação e diferenciação das células satélites do tecido muscular (conhecido como os “blocos de construção do tecido muscular”). A proliferação e diferenciação das células satélites pós exercício (ou injuria muscular) é um metabolismo essencial para que os músculos se adaptem ao treinamento (p.ex., para ganho de força e hipertrofia) ou se recupere das injurias de outras origens (como traumas). Então, aquela dor pós-treino é um indicativo de alta atividade das PGs. Nesse sentido, fazer o uso de AINEs para tirar a dor, também tirará seus possíveis ganhos em massa muscular e força (Fig 1). Você que já deve ter estudado sobre o assunto deve estar se perguntando: então porque os dados com humanos são tão conflitantes e não corroboram com os achados de estudos in vitro, com os achados de modelo animal e os estudos agudos que demonstram efeito negativo dos AINEs na sinalização proteica?

Fig 1. Demonstração do mecanismo relacionado ao papel da PGE2 (e a influência do uso de AINEs) na regeneração muscular pós injuria (p.ex., pós exercício físico). Clique na imagem para a descrição; NSAID=AINEs

Aparentemente estudos anteriores não conseguiram reproduzir os efeitos negativos dos AINEs na adaptação ao treinamento em humanos devido a dois fatores: (1) dose testada (foi baixa) e; (2) tipo de amostra ( ou seja, indivíduos jovens e saudáveis e indivíduos idosos que geralmente possui um estado de inflamação crônica respondem diferentemente ao tratamento com altas doses de AINEs).

Por exemplo. um recente estudo longitudinal [2], demonstrou que, em humanos jovens e saudáveis, o uso crônico (8 semanas) de ibuprofeno (1200 mg/dia, dose recomendada como máxima) associado ao treino de musculação gerou menos ganho de massa muscular (somente +3,7%) do que o grupo de indivíduos fizeram o uso de baixa dose de AINEs (75mg/dia de aspirina, que permitiu o ganho de +7,5% de massa muscular), veja a Fig 2. Neste mesmo estudo, o ganho de força também foi afetado negativamente nos indivíduos que ingeriram 1200mg/dia de Ibuprofeno, quando comparado aos indivíduos que tomaram aspirina. (Os autores deste estudo [2] usaram 75mg/dia de aspirina, como grupo controle, pelo fato deles estimarem que esta dosagem era muito baixa para chegar ao músculo estudado, ou seja, não iria inibir a atividade da COX daquela região).

Fig 2. Ganho na área seccional transversa do quadríceps após 8 semanas de treinamento associado ao uso da suplementação de 1220mg/dia de ibuprofeno (IBU) ou 75mg/dia de aspirina (ASA).

Anteriormente, outro estudo [3] de 6 semanas com humanos (que realizou 6 séries de rosca direta, 3 vezes por semana) e que fez o uso de doses de 400mg de ibuprofeno somente nos dias de treino (ou seja, três doses semanais) não identificou interferência nas adaptações ao treinamento.

Nesse sentido, estes dados sugerem que, em jovens saudáveis, o efeito negativo dos AINEs nas adaptações ao treinamento é dose dependente. Aparentemente, doses isoladas (ou a baixa dose de aspirina) não promove efeitos negativos que sejam significativos, mas vale a pena lembrar que o processo de hipertrofia é o acúmulo de cada sessão de treino ao longo do tempo (ou seja, estudos com períodos maiores e com avaliação mais minuciosas  ainda são necessários para afirmar se as baixas doses de AINEs não exerce efeito negativo na adaptação ao treinamento).

Parece contra intuitivo, mas a inflamação aguda pós-treino é necessário para que haja um correta adaptação ao treinamento, ou seja, o aumento agudo das “temidas” citocinas pró-inflamatórias como IL-6, TNF e IFN-γ, na verdade, é benéfica e necessária para manter os músculos saudáveis [1]. Por outro, a inflamação crônica (níveis elevados dessa citocinas) não deixa o músculo regenerar-se corretamente, aparentemente é isso que ocorre durante o processo de envelhecimento e em doenças como a distrofia muscular Duchenne [1].

Interessantemente, um estudo de 12 semanas com uso de 1200mg/dia de ibuprofeno associado ao treino de musculação em idosos (60-78 anos) promoveu um efeito positivo no ganho de massa muscular e força [4], veja Fig 3. Especula-se que neste caso o ibuprofeno fez a remoção da inflamação crônica (que geralmente é observado em idosos), isso permitiu que o músculo conseguisse regenerar-se corretamente.

Fig 3. Efeito do uso de AINEs no ganho de massa muscular em idosos.* aumento significativo devido ao treinamento. # diferença em relação ao placebo.

Em resumo, se sou jovem é melhor optar por uma baixa dose de AINEs para tirar a dor (insuportável) pós treino (se você acha que dor muscular tardia é sinônimo de ganhos em força e hipertrofia, então precisa ler o post: “Acabando com o mito “No pain no gain”, PARTE 1“). Por outro lado, se já sou um idoso, ou possuo uma inflamação crônica (por exemplo, tendinite), o uso de doses mais elevadas de AINEs (por exemplo, máximo de 1200mg/dia) não irá atrapalhar os meus ganhos de força e massa muscular e pode até ser benéfico.

Se você tem problemas com tendinite (por exemplo), mas tem medo de tratá-la  porque tem medo de deixar de evoluir nos treinos, uma boa opção é o uso de AINEs em gel (para aplicação localizada). Converse com seu médico ou farmacêutico!

Referências

1- Ho, Andrew TV, et al. “Prostaglandin E2 is essential for efficacious skeletal muscle stem-cell function, augmenting regeneration and strength.” Proceedings of the National Academy of Sciences (2017): 201705420.

2- Lilja, Mats, et al. “High‐doses of anti‐inflammatory drugs compromise muscle strength and hypertrophic adaptations to resistance training in young adults.” Acta Physiologica (2017).

3-Krentz, JR, Quest, B, Farthing, JP, Quest, DW, Chilibeck, PD: The effects of ibuprofen on muscle hypertrophy, strength, and soreness during resistance training. Appl Physiol Nutr Metab 33: 470-475, 2008.

4-Trappe, TA, Carroll, CC, Dickinson, JM, LeMoine, JK, Haus, JM, Sullivan, BE, Lee, JD, Jemiolo, B, Weinheimer, EM, Hollon, CJ: Influence of acetaminophen and ibuprofen on skeletal muscle adaptations to resistance exercise in older adults. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol 300: R655-662, 2011.

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