Alimentação / Suplementação

Fazer ciclos de dieta restritiva pode engordar

Por Elias de França

Se você tem um peso normal, mas ainda quer perder uns quilinhos (na verdade emagrecer) para dar aquela secada, CUIDADO, você pode dar início a um processo vicioso (efeito bola de neve) que te levará grandes ganhos de gordura corporal.

A partir de diversas evidências científicas há um interessante estudo (1) que demonstra como indivíduos (com peso normal) que se submeteram a dietas restritivas (que causam um débito calórico) tendem a engordar (independentemente da genética e fatores familiares). Frente a este paradoxo, alguns pesquisadores (1) resolveram investigar porquê pessoas que estão com peso normal que se submetem a dietas restritivas tendem a engordar.

Nesta pesquisa (1) foram avaliados diversos estudos que acompanharam crianças, adolescentes e adultos, inclusive atletas de modalidades peso dependente (todos possuíam peso dentro da normalidade) e que se submeteram a dietas restritivas. Foi percebido que nesses sujeitos havia uma maior probabilidade de ficar gordo, do que os sujeitos que não se submetiam a dietas restritivas. O famoso “efeito sanfona” (resultado de diversas dietas restritivas) é um indicativo de que a “bola de neve desce a ladeira”.

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Figura retirada de Dullo et all., (1).

Como indivíduos que se preocupam com o peso (ao ponto de fazer dietas restritivas) é que tendem a ficar gordo?  Dullo e seus colegas (1) apresentam estudos clássicos demonstrado que quando um indivíduo passa por um período de restrição calórica e, em seguida a isso, lhe é permitido ingerir alimentos de acordo com o seu apetite, ocorre um processo chamado hiperfagia (compulsão alimentar), até o momento que a massa livre de gordura (MLG) e a massa gorda (MG) sejam totalmente recuperado. Entretanto, como a restauração da MLG é mais demorado que o acumulo de gordura (pois é dependente de processos de síntese de proteínas), com isso haverá um reganho de peso e de MG maiores que os valores do início da dieta. Veja na Fig.1, a compilação de estudos que demonstram o reganho do peso associado ao processo de hiperfagia (em que os valores superiores ao início da dieta restritiva), perceba que em alguns casos o ganho em MG é maior que o ganho de peso.

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Figura retirada de Dullo et all., (1).

Mais especificamente, a Figura 2 ilustra que após um o período de dieta restritiva o processo de hiperfagia dura até a recuperação da MLG (sendo que ao fim deste período o ganho em massa gordo já superou os valores de pré dieta).

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Fig 3: O esquema mostra um diagrama de mudanças na composição corporal da massa gorda e massa livre de gordura-MLG (em indivíduos magros) durante um ciclo de perda de peso seguido de recuperação. As linhas ‘A’ e ‘B’ representa a recuperação totalmente sincronizados de MLG e massa gorda, respectivamente, atingindo (teoricamente) a recuperação completa e simultaneamente no ponto de tempo ‘X’. A linha ‘C’ representa o valor observado com a recuperação de gordura em excesso, ou seja, para além do que era determinado pelo controle (backup) do indivíduo; este tipo de reganho da gordura é induzido por uma supressão adaptativa da termogênese específica do tecido adiposo. A consequência desse fenômeno de reganho de gordura é que a recuperação da gordura e MLG agora estão dessincronizados, com a gordura corporal sendo completamente recuperada antes que a MLG (ou FFM), ou seja, no ponto de tempo ‘Y’, quando a massa gorda está totalmente recuperado a MLG ainda está longe de uma recuperação completa (ponte de tempo ‘Z’). A fim de completar a recuperação da MLG, a hiperfagia persiste devido a uma operação contínua e de sinais proteostáticos (receptores que ligam o déficit de MLG à ingestão de alimentos). Como consequência da operação contínua do controle de particionamento de energia para concluir a recuperação MLG, a gordura também continua a ser depositado acima dos níveis basais (linha “D”), resultando no fenômeno do superávit de gordura (e peso). Figura e legenda traduzida e adaptada a partir de Dullo et al., (1).

Segundo os autores, parece que o nosso organismo possuí um backup dos valores e razão entre massa gorda/MLG. Nesse sentido, após um período de restrição calórica (ao voltar a ser alimentar ad libitum), o nosso organismo sempre tende a voltar aos valores iniciais de gordura e de MLG (recuperando os valores perdido neste processo). Entretanto, esse retorno não é sincronizado devido ao fato da termogênese específica do tecido adiposo permanecer diminuída durante o processo de restrição calórica e no processo de hiperfagia (isso faz com que o tecido adiposo recupere muito mais rápido que a MLG). Nesse sentido, a hiperfagia durando até a total recuperação da MLG ocorrerá que no fim deste processo o indivíduo ficará com um superávit no tecido adiposo (e o organismo fará um novo backup dos valores e da razão entre MLG e massa gorda), veja a Fig. 3.  Estes efeitos pós dietas restritivas são mais contundentes em indivíduos magros, os mesmos efeitos não são observados em indivíduos obesos.

Então magros não podem fazer dietas restritivas para dar aquela “secada”?

Pode sim, mas de acordo com Dullo e seus colegas (1), o organismo tem um backup dos valores de MLG e massa gorda (assim como a razão entre eles). Nesse sentido, quando o objetivo for emagrecer temos que ter em mente que devemos perder o menos possível de MLG. Para isso, uma estratégia dietética deverá ser adotada, assim como uma estratégia de programa de treinamento físico (ambos para previr a perda de MLG, numa dieta restritiva). Nesse sentido, não basta somente “fechar a boca”, uma estratégia dietética acompanhada de exercício físico adequado deve ser adotada.

Lançamos mais dois textos, dando seguimento a este, abordando o que a literatura científica recomenda sobre estratégia dietética e estratégia de treinamento físico que podem auxiliar na sua estratégia de emagrecimento sem perda de MLG (…stay tuned).

Referência:

1- DULLOO, Abdul G. et al. How dieting makes the lean fatter: from a perspective of body composition autoregulation through adipostats and proteinstats awaiting discovery. Obesity Reviews, v. 16, n. S1, p. 25-35, 2015.

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