Saúde

EPO no ciclismo e os problemas fatais que isso pode causar.

Após uma corrida tradicional de ciclismo, foi relatada a morte de um dos atletas por parada cardíaca. Um atleta de ciclismo de 23 anos, de nível competitivo, vocês sabem o que isso quer dizer??

Quer dizer que é incompatível, para não dizer IMPOSSÍVEL, um indivíduo nessa condição de saúde e preparo físico ter um tipo de evento desse. É claro que podem ter outros fatores envolvidos, o atleta poderia ter um problema cardíaco anterior (mas que já devia ter sido diagnosticado e se assim fosse, talvez ele devesse buscar outra carreira), ele pode ter sofrido um trauma (algumas fontes dizem que a parada cardíaca aconteceu após a sua queda) e então ter tido uma parada cardíaca, ele pode ter levado seu organismo a um extremo tão intenso que acabou culminando numa parada cardíaca, talvez a verdade nunca seja revelada.

Nem é a nossa função aqui julgar ou apontar dedos para esse ou aquele, na verdade, a notícia entristece todos aqueles que amam o ciclismo como é o nosso caso.

Mas, até por conta de acompanhar o esporte já a bastante tempo, e de ter bastante experiência na área da fisiologia do exercício, também não conseguimos deixar de pensar que algum elemento externo poderia estar desequilibrando o organismo desse atleta o levando ao extremo que culminou na sua parada cardíaca.

Então, sabendo que a pressão pelas melhores marcas existe, sabendo que nós, seres humanos, cedemos a elas e, sabendo também, que existem substâncias (a disposição) que podem provocar esse tipo de acidente (sim, por que todo mundo quer o título, mas ninguém quer morrer), aí vai o recado.

A EPO ou eritropoietina, é um hormônio naturalmente produzido no organismo humano que é responsável pela produção de hemácias (os glóbulos vermelhos). Esse hormônio foi copiado quimicamente para funcionar como um remédio para pessoas com anemia crônica ou com problemas renais. (Lippi et al., 2006; Scott e Phillips, 2005)

Quando um sujeito saudável usa esse remédio, o que acontece é que seus níveis de hemácias aumentam muito. Isso é um bom negócio, pois facilita o transporte de oxigênio para os músculos e os torna mais eficientes. Porém, quando a dose é excessiva, mesmo para um atleta, isso pode ser um problema, pois isso aumenta a viscosidade do sangue e dá mais trabalho ao coração para que ele seja bombeado. (Lippi et al., 2006; Heuberger et al., 2018)

Isso nos faz pensar que um ciclista, com um bom coração, bem treinado, pode aguentar que o sangue seja mais viscoso e tenha mais hemácias, e é verdade. Mas, (E AQUÍ VAI O RECADO INDIGESTO PRA QUEM ACHA QUE A EPO SÓ TRAZ BENEFÍCIOS, pra quem acha que vai virar o Flash na bike com a EPO)  se você exagerar na dose (e não existe um valor de referência, nem um valor de indicação, é tudo feito na tentativa e erro) o que pode acontecer é você somar o esforço de uma prova de elite do ciclismo, com um sangue muito rico em hemácias (exageradamente, por conta do uso de EPO) e isso acabar gerando um colapso cardíaco!

Um estudo de 2014 de Hardeman e colaboradores, fala sobre uma reunião onde cientistas e treinadores chegaram a um valor de HEMATÓCRITO CRÍTICO (uma quantidade ideal de hemácias no sangue) obtido com o treinamento e o uso de EPO. Esse valor obviamente é muito maior que a de um sedentário, mais também previne o raciocínio limitado de que mais é sempre melhor, pelo menos nesse caso! Esse estudo deveria ser material de cabeceira de todos os treinadores, fisiologistas e até mesmo dos atletas!

É a velha história do tiro que sai pela culatra, o que era para facilitar o exercício e tornar os músculos mais eficientes, quando em excesso, gera uma sobrecarga cardíaca que quando combinada ao esforço pode ser fatal!

Então, até para burlar a regra existe um limite, porque não é possível burlar a fisiologia!

Talvez o olhar para suplementos efetivos em melhorar o custo do oxigênio como o Nitrato da beterraba, ou a arginina AKG possam colocar em evidência todo o esforço, treinamento e comprometimento que nós sabemos que os ciclistas têm. Afinal, sem treino, nem mesmo o melhor doping faz os campeões!

Bons treinos e bons estudos!

Referências:

1 – Lippi G, Franchini M, Salvagno GL, Guidi GC. Biochemistry, physiology, and complications of blood doping: facts and speculation. Crit Rev Clin Lab Sci. 2006;43(4):349-91.

2 – Scott J, Phillips GC. Erythropoietin in sports: a new look at an old problem. Curr Sports Med Rep. 2005 Aug;4(4):224-6.

3 – Heuberger JAAC, Rotmans JI, Gal P, Stuurman FE, van ‘t Westende J, Post TE, Daniels JMA, Moerland M, van Veldhoven PLJ, de Kam ML, Ram H, de Hon O, Posthuma JJ, Burggraaf J, Cohen AF. Effects of erythropoietin on cycling performance of well trained cyclists: a double-blind, randomised, placebo-controlled trial. Lancet Haematol. 2017 Aug;4(8):e374-e386. doi: 10.1016/S2352-3026(17)30105-9. Epub 2017 Jun 29.

4 – Hardeman M, Alexy T, Brouwer B, Connes P, Jung F, Kuipers H, Baskurt OK. EPO or PlacEPO? Science versus practical experience: panel discussion on efficacy of erythropoetin in improving performance. Biorheology. 2014;51(2-3):83-90. doi: 10.3233/BIR-140655. Review.

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