Treinamento

Elevation Training Mask funciona? (Parte 2)

Na matéria anterior levantamos diversas referências teóricas (a partir de achados científicos) que podem nos levar a pensar “esse negócio deve funcionar”, então vou comprá-la. Entretanto, temos que ter calma, antes de ir a uma loja, devo alertar que na ciência (a teoria) é como um (a) moço (a) esteticamente lindo (a), que você só conhece “de vista”. Então, antes de irmos pessoalmente conhecê-lo (a) (para investir tempo e esforço), seria prudente que procurássemos obter informações para saber se vale a pena ou não fazer um investimento (ops!), quer dizer, conhecê-lo(a) melhor.

Entretanto, não é fácil fazer perguntas, porque em muitos casos o interlocutor pode lhe responder o que você quer ouvir (simplesmente para lhe agradar) ou não entender a sua pergunta (e não responder o que você, de fato, perguntou). Isso também acontece na ciência, quando queremos descobrir se há aplicação prática de determinadas teorias. Então vamos ao caso do TMK.

Os artigos que avaliaram o TMK fizeram as perguntas corretas?

Podemos dizer que sim.

Encontramos 5 estudos científicos, um [1] quis saber se a máscara promoveria, por exemplo, a diminuição da saturação de O2, aumento da expiração do CO2 e Percepção Subjetiva de Esforço (PSE); os outros três [2,3,15] se haveria melhoria na aptidão aeróbia e anaeróbia, após um período de treinamento. O estudo mais recente investigou o efeito agudo do TMK em uma sessão de musculação. Entretanto, muitas outras perguntas ainda precisam ser feitas (p.ex., as mitocôndrias ficam mais eficientes). Além disso, como vimos na matéria anterior, estas perguntas não são suficientemente contundentes para termos a certeza de que a máscara cumpre com o que promete (promover adaptações fisiológicas semelhantemente à elevadas altitudes).

Os desenhos dos estudos foram robustos para responder as perguntas?

Em algumas questões! Mas, alguns estudos não foram bem conduzidos para nos fornecer as respostas: se vale a pena (ou não) investir no TMK.

Como já observado [1], o treino com o TMK aumenta significativamente a percepção subjetiva de esforço (PSE). A PSE é um marcador de fadiga central [10]. A disponibilidade de O2 (em particular, no Sistema Nervoso Central- SNC) é determinante para o desenvolvimento da fadiga central [7]. Nesse sentido, quando o TMK limita a entrada de O2 pelas vias aéreas (diferentemente do treino em hipóxia por oclusão de membros) irá limitar a oferta de O2 para o SNC. Com isso, a diminuição da intensidade do exercício pode ocorrer de forma espontânea, caso não haja uma estratégia de controle para a sua manutenção [11,12].

A intensidade do exercício é um item fundamental para promover adaptações ao treino de endurance (p. ex. aumento do VO2máx.) [13], força e potência. De acordo com o parágrafo anterior, é imprescindível que pesquisas que busquem testar a eficácia do TMK controlem a intensidade das sessões de exercício físico (intensidade igual para ambos os grupos).

Dois estudos [2,3] que testaram a eficácia do TMK nas adaptações ao treinamento de endurance não controlaram a intensidade das sessões de treinamento, apenas pediram para que os participantes do grupo que iriam utilizar o TMK seguissem uma planilha de treino (ou seja, além de não haver acompanhamento das sessões de treino, não houve qualquer controle da intensidade).

Muitas outras limitações podem ser encontradas nos dois estudos [2,3], como a falta de um grupo sham (que treinasse com uma máscara que simulasse uma restrição de ar, mas sem impedir a fornecimento de O2); verificação da intensidade da hipóxia durante as sessões de treino; não há informações se a intensidade do treinamento era suficiente para promover adaptações significantes nos indivíduos que treinaram com a máscara; não foi utilizado um método de avaliação metabólica de alta sensibilidade, como alterações hematológicas; etc.). Nesse sentido, estudos com desenhos mais robustos ainda são necessários para verificar a eficácia do TMK.

Entretanto um outro estudo que testou o TMK no treinamento resistido verificou que quando os participantes utilizaram o TMK o volume da sessão de treino foi menor (as repetições deveriam ser repetições até a falha); as concentrações de lactato plasmático também foi menor, já a percepção subjetiva de esforço foi maior, na situação TMK. O resultado deste estudo confirma que o TMK exacerba a fadiga central, diminui a capacidade de realizar exercício (o que pode ser um fator limitante no processo de hipertrofia muscular), além de não ser capaz de induzir um maior estresse metabólico (como é observado no treinamento resistido com oclusão).

Então o training mask é um placebo?

Pelo simples fato do TMK aumentar a PSE (via limitação do fluxo de O2), deixa de ser um placebo. Na melhor das hipóteses pode ser uma forma de treinar à resistência a fadiga central (uma estratégia para promover o aumento da performance em situações de endurance) [14], mas será necessário um estudo para demonstrar isso. Por outro lado, o TMK também pode ser uma forma de treinar a musculatura relacionada a respiração.

Conclusões

Se o TMK veio para ficar, não sabemos. Entretanto, devido ao seu aparente potencial (custo vs. benefício), ainda irá render algumas pesquisas. O nosso ponto de vista é: vale a pena esperar os próximos estudos (com desenhos mais robustos) antes de tomar a decisão de investir no TMK. Por enquanto não há evidências científicas de que o TMK potencialize os ganhos em performance, na verdade pode ser um fator limitante (principalmente para quem busca hipertrofia muscular).

Referências:

  1. Granados, J., et al. “Elevation Training Mask” Induces Hypoxemia But Utilizes A Novel Feedback Signaling Mechanism. in International Journal of Exercise Science: Conference Proceedings. 2014.
  2. Sellers, J.H., et al., Efficacy of a Ventilatory Training Mask to Improve Anaerobic and Aerobic Capacity in Reserve Officers’ Training Corps Cadets. Journal of strength and conditioning research/National Strength & Conditioning Association, 2015.
  3. Warren B, S.F., and Bonnette R, THE EFFECTS OF AN ELEVATION TRAINING MASK ON VO2MAX OF MALE RESERVE OFFICERS’ TRAINING CORPS CADETS. National Conference and Exhibition. Presented at National Strength & Conditioning Association, 2015.
  4. Murray, A.J. and J.A. Horscroft, Mitochondrial function at extreme high altitude. The Journal of physiology, 2015.
  5. Holloway, T.M., et al., High Intensity Interval and Endurance Training Have Opposing Effects on Markers of Heart Failure and Cardiac Remodeling in Hypertensive Rats. PloS one, 2015. 10(3): p. e0121138.
  6. Lindholm, M.E. and H. Rundqvist, Skeletal muscle HIF-1 and exercise. Experimental Physiology, 2015: p. n/a-n/a.
  7. Scott, B.R., K.M. Slattery, and B.J. Dascombe, Intermittent hypoxic resistance training: does it provide added benefit? Frontiers in Physiology, 2014. 5.
  8. Faiss, R., et al., Repeated Double-Poling Sprint Training in Hypoxia by Competitive Cross-country Skiers. Medicine & Science in Sports & Exercise, 2015. 47(4): p. 809-817.
  9. Kasai, N., et al., Effect of training in hypoxia on repeated sprint performance in female athletes. SpringerPlus, 2015. 4(1): p. 1-7.
  10. de Morree, H.M. and S.M. Marcora, Psychobiology of Perceived Effort During Physical Tasks, in Handbook of Biobehavioral Approaches to Self-Regulation. 2015, Springer. p. 255-270.
  11. Marcora, S.M., A. Bosio, and H.M. de Morree, Locomotor muscle fatigue increases cardiorespiratory responses and reduces performance during intense cycling exercise independently from metabolic stress. American Journal of Physiology-Regulatory, Integrative and Comparative Physiology, 2008. 294(3): p. R874-R883.
  12. Pageaux, B., et al., Mental fatigue induced by prolonged self-regulation does not exacerbate central fatigue during subsequent whole-body endurance exercise. Frontiers in human neuroscience, 2015. 9.
  13. Gormley, S.E., et al., Effect of Intensity of Aerobic Training on VO~ 2~ m~ a~ x. Medicine and science in sports and exercise, 2008. 40(7): p. 1336.
  14. McCormick, A., C. Meijen, and S. Marcora, Psychological determinants of whole-body endurance performance. Sports Medicine, 2015: p. 1-19.
  15. Porcari, John P., et al. “Effect of wearing the elevation training mask on aerobic capacity, lung function, and hematological variables.” Journal of sports science & medicine 15.2 (2016): 379.
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