Saúde

Dieta sem glúten e performance atlética

Esta matéria é uma adaptação e tradução (da Profª Stella Lucia Volpe) de grande relevância e aplicação para a prática clínica de nutricionistas e de informação para atletas.  A matéria original pode ser encontrada aqui.

 

INTRODUÇÃO

Há uma grande discussão sobre se indivíduos que não têm doença celíaca devem consumir dietas sem glúten. Dietas sem glúten (gluten-free), com certeza, é um tema de discussão entre atletas. Alguns atletas acreditam que consumir uma dieta livre de glúten proporciona um efeito ergogênico (aprimorando a performance), apesar da falta de evidência para apoiar essa crença. Nesta visão da Profª Volpe, primeiro será fornecido uma definição de doença celíaca e, em seguida, será apresentado pesquisas que foram conduzidas na área de consumo de dietas sem glúten.

 

O QUE É DOENÇA CELÍACA?

A doença celíaca, também conhecida como psilose celíaca, psilose não-tropical e enteropatia sensível ao glúten, é uma condição autoimune que, se não diagnosticada, levará a danos no intestino delgado. Além de danos ao intestino delgado, a doença celíaca não diagnosticada pode levar a anemia ferropriva, osteoporose de início precoce, intolerância à lactose e distúrbios do sistema nervoso, para citar alguns. A doença celíaca é tipicamente hereditária (1).

Em indivíduos com doença celíaca, o consumo de glúten, que é uma proteína encontrada, por exemplo, no centeio, cevada, aveia e trigo, levará a uma resposta autoimune, onde o corpo irá atacar o intestino delgado, o que levará à má-absorção de nutrientes. Portanto, indivíduos com doença celíaca devem evitar alimentos contendo glúten (1).

Devido ao aumento do diagnóstico de doença celíaca, houve um aumento na produção de produtos sem glúten. Com este aumento na disponibilidade de produtos sem glúten, houve um aumento no número de indivíduos sem doença celíaca que agora consomem produtos sem glúten. Existe uma base para isso? Com relação aos atletas, o consumo de uma dieta sem glúten aumentará o desempenho? Vamos ver o que a pesquisa científica nos diz.

 

DIETAS SEM GLÚTEN E PERFORMANCE ATLÉTICA

Antes de discutir o efeito de uma dieta sem glúten sobre à performance atlética, é importante entender por que os atletas sem doença celíaca optam por consumir uma dieta sem glúten. Lis et al. (2) avaliou a demografia de atletas sem doença celíaca, com objetivo de verificar as experiências e percepções do porque os atletas optam por consumir dietas sem glúten. Eles administraram uma pesquisa on-line para 910 atletas (528 mulheres, 377 homens e 5 atletas que não escolheram gênero). Eles relataram que 41% de todos os atletas (18 deles eram medalhistas mundiais e olímpicos) consumiam uma dieta sem glúten (50% a 100% do tempo). Um total de 13% consumia uma dieta sem glúten para o tratamento de uma condição médica, enquanto 57% dos atletas se auto identificaram como sensíveis ao glúten. Os atletas que consumiam uma dieta sem glúten (em mais de 50% do tempo) eram principalmente atletas de endurance, que relatavam sintomas gastrointestinais isolados ou combinados com outros sintomas que eles acreditavam serem causados ​​pelo glúten. Mais de 80% dos atletas que consumiam dietas sem glúten (em mais de 50% do tempo) relataram que seus sintomas melhoraram ao remover o glúten de suas dietas. A maioria dos atletas relataram que retiram suas informações sobre dietas sem glúten de fontes on-line, de treinadores e/ou de outros atletas.

Lis et al. (3) realizou outro estudo (em atletas sem doença celíaca) para avaliar os efeitos do consumo de uma dieta sem glúten na performance atlética, sintomas e lesões gastrointestinais, marcadores inflamatórios, bem como o bem-estar percebido entre os atletas. Neste estudo (randomizado, duplo-cego e crossover), cinco mulheres e oito homens ciclistas competitivos, que não tinham doença celíaca, receberam uma dieta de 7 dias que continha glúten ou uma dieta sem glúten. Estes foram separados por um período de wash-out de 10 dias, altura em que os atletas receberiam a dieta oposta.

Lis et al. (3) não relataram diferenças significativas entre as dietas na performance atlética, nos sintomas gastrointestinais durante o exercício, bem-estar, lesão intestinal ou inflamação. Embora este tenha sido um estudo de curto prazo, com apenas 13 participantes, garante que os atletas precisam ser informados das escolhas alimentares que fazem diariamente.

Lis et al. (4) afirmam que há explicações razoáveis ​​entre o exercício de endurance e os efeitos gastrointestinais e porque os indivíduos consideram benéfico consumir uma dieta sem glúten, mesmo que não tenham doença celíaca. No entanto, o risco de restrição dietética e elevado custo financeiro são apenas dois fatores que exigem mais investigação sobre o consumo de dietas sem glúten em atletas sem doença celíaca.

 

RESUMO

Embora haja uma escassez de pesquisa na área de dietas sem glúten e performance atlética, pesquisas iniciais indicam que não há benefício para atletas que não têm doença celíaca para consumir dietas sem glúten. Mais pesquisas são necessárias em populações maiores e em diferentes laboratórios, para determinar definitivamente se há (ou não) um benefício.

Embora haja uma escassez de pesquisa na área de dietas sem glúten e performance atlética, pesquisas iniciais indicam que não há benefício para atletas (que não têm doença celíaca) o consumo de uma dieta sem glúten.

 

Referências

1. Celiac Disease Foundation Web site [Internet]. Woodland Hills (CA): Celiac Disease Foundation; [cited September 18, 2017]. Available from: https://celiac.org/celiac-disease/understanding-celiac-disease-2/what-is-celiac-disease/

2. Lis DM, Stellingwerff T, Shing CM, Ahuja KD, Fell JW. Exploring the popularity, experiences, and beliefs surrounding gluten-free diets in nonceliac athletes. Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2015;25(1):37–45. [Epub 2014 Jun 5]

3. Lis D, Stellingwerff T, Kitic CM, Ahuja KD, Fell J. No effects of a short-term gluten-free diet on performance in nonceliac athletes. Med Sci Sports Exerc. 2015;47(12):2563–70

4. Lis DM, Fell JW, Ahuja KD, Kitic CM, Stellingwerff T. Commercial hype versus reality: our current scientific understanding of gluten and athletic performance. Curr Sports Med Rep. 2016;15(4):262–8

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