Alimentação / Suplementação

Como o exercício físico de alta intensidade pode deprimir o seu sistema imune

Por Elias de França

É bem sabido que o treinamento com elevado volume pode levar a depressão do sistema imune- SI (e levar ao overtraining), de forma parecida o treinamento de alta intensidade (de curta duração) também pode levar a depressão do SI, se ambos foram mal administrados.

Está bem estabelecido que o treinamento físico crônico tem um efeito anti-inflamatório 1. No entanto, o treinamento  de alta intensidade (e de curta duração) pode deprimir o sistema imune (SI), principalmente as células do tipo T (linfócitos) e citosinas pró-inflamatórias como o INF-y, e TNF-α 2. Essa modulação do SI está relacionada à três fatores: primeiro, à alterações hormonais que têm como consequência uma reposta anti-inflamatória: segundo, à baixa disponibilidade de substrato energético para o SI, ou seja, alteração do metabolismo da glutamina e glicose e; terceiro (que parece ser uma consequência do segundo), frente a prática crônica de exercício há uma diminuição na expressão gênica da linhagem de células TH1  1. O perfil de expressão gênica (TH1) é responsável pela produção de INF-y, que induz a atividade de um conjunto de quimiocinas (por exemplo, CXCL10) responsáveis por promover a quimiotaxia das células T CD8+ para áreas (possivelmente) infectadas (e.g., vírus) ou células com comportamentos anormais (por exemplo, células pré-cancerosas ou infectadas) para dar início ao processo de destruição destas células 3. Algumas evidências recentes vêm demonstrado que seis semanas de treinamento intervalado de alta intensidade é capaz de atenuar a proliferação de um subconjunto de células T CD8+ (CD8low, que produz altos níveis de INF-y e TNF-α) 4.

Estudos de intervenção aguda demonstra que o exercício físico mobiliza elevadas concentrações de células T CD8+ (a parti de diversos órgão para a corrente sanguínea), em resposta ao aumento das catecolaminas durante o exercício físico 5. Se por um lado essa mobilização de células do SI para a corrente sanguínea (aumentando a suas concentrações nesta área) durante  o exercício físico (veja Fig. 2A e B) exerce um significante papel na remoção de células hiper-reativas do SI (o que pode diminuir as chances o estado de inflamação crônica- veja a importância de diminuir a inflamação crônica em outro post) e redistribuição (aumentando a vigilância do SI, assim diminuindo as chances de sofrer de quadros infeciosos, como gripe e resfriados) 6, por outro lado quando o exercício agudo de alta intensidade é realizado pode ocorrer uma imunossupressão temporária (veja a Fig. 2C). Nesse sentido, o exercício físico de alta intensidade tem que ser dosado (e cuidadosamente administrado, ou seja, respeitando os princípios do treinamento: periodização), veja o exemplo da Figura 1 quando o treinamento de alta intensidade não é periodizado (carga de trabalho “muito elevada”, de forma crônica). (Caso de elevadas taxas de atletas infectados por vírus e bactérias são geralmente reportados em épocas de treinamento e competições, situações de alta intensidade ou volume de treino).

Figura 1 – Relação entre o risco de infecção das vias aéreas superiores e a quantidade e intensidade de exercício físico praticado. Fonte.

Exemplo de uma sessão de treino de alta intensidade que deprime o seu sistema imune

Jin et al. 7  demonstraram que tanto um sessão de treino resistido (musculação) quanto a de treino de endurance intenso pode induzir uma imunossupressão temporária.

Os autores desse estudo submeteram jovens relativamente treinados (~20 anos; VO2máx, ~53 ml/kg/min) a duas sessões de treino, sessões separadas por 2 semanas: 1) sessão de treino resistido (que consistiu de cinco exercícios: supino, remada sentada, abdominais, extensão e flexão de joelho) com carga à 85% 1RM,  foram realizadas 8 séries de cada exercício  (com 30 s de descanso), sendo todas as séries realizados até a falha (veja a figura do esquema de treino); 2) sessão de treino de endurance (corrida numa esteira à 85% do VO2máx., até a exaustão). Ambos os treinos foram curtos: treino resistido durou ~36± 2 min (estimativa nossa) e o treino de endurance durou 28.85±4.74 min (valores reportado pelos autores).

No treino de endurance os participantes alcançaram valores de frequência cardíaca (FC) próximo do máximo (o platô da FC foi atingido já nos ~10 min de corrida), os valores de cortisol e estresse oxidativo também subiram significantemente em ambos os treinos .

Fig 2. Logo após a prática de exercício físico (End) é possível observar o aumento de células T CD8+ na corrente sanguínea (A e B, endurance e musculação, respectivamente). O aumento dessas células na corrente sanguínea sem o correspondente aumento das células T CD4+ (queda da razão T CD4:CD8) sugere estado de  imunossupressão, figura C. Rest, antes do exercício; Recovery, 30 min após o treino.

Ao final de ambos os treinos, foi observado uma imunossupressão temporária (i.e., uma redução da razão das células T CD4: CD8 abaixo de 1, quando o valor normal é >1, veja abaixo a Figura 2C). Os treinos induziram aumento das células T CD8+, mas não das células T CD4(responsáveis pela modulação e distribuição da resposta adaptativa das células T), sugerindo que eles induziram o organismo dos participantes um estado de imunossupressão. Essa situação de imunossupressão foi temporária, como pode ser observado na Figura 2, após meia hora de recuperação as concentrações séricas de linfócitos voltaram aos valores de repouso (razão T CD4: CD8 >1). Estudos anteriores já haviam sugerido que treinos de endurance em intensidades acima de 60% do VO2máx. promove significante apoptose (destruição)  de linfócitos  5. Um outro estudo4  com treinamento de alta intensidade demonstrou que logo após o exercício há uma redução da população de células T CD4+ e aumento células T CD8+ (ambos voltam aos valores normais após 60 min de repouso). O estudo de Jin et al. 7 também sugere que o treino de musculação de ~40 séries até a falha (para o corpo todo) com cargas elevadas (~85% 1RM) também pode promover um estado de imunossupressão temporária (com recuperação dos valores normais em 30 min de repouso).

Em alguns momentos (do treinamento) temos que intensificar as sessões (ou aumentar o volume) para obtermos maiores resultados. Nesse sentido, para minimizar ao máximo alterações indesejadas no SI devemos tomar alguns cuidados. Assunto para o próximo post.

Abraços!

 

Referências:

1                  GJEVESTAD, G. O.; HOLVEN, K. B.; ULVEN, S. M. Effects of Exercise on Gene Expression of Inflammatory Markers in Human Peripheral Blood Cells: A Systematic Review. Current Cardiovascular Risk Reports, v. 9, n. 7, p. 1-17,  2015. ISSN 1932-9563. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1007/s12170-015-0463-4 >.

2                  WASINSKI, F.  et al. Lymphocyte Glucose and Glutamine Metabolism as Targets of the Anti-Inflammatory and Immunomodulatory Effects of Exercise. Mediators of Inflammation, v. 2014,  2014. ISSN 0962-9351.

3                  RASHIGHI, M.  et al. CXCL10 Is Critical for the Progression and Maintenance of Depigmentation in a Mouse Model of Vitiligo. Science translational medicine, v. 6, n. 223, p. 223ra23-223ra23,  2014. ISSN 1946-6234.

4                  SHIU, M. Modulation of T Cell Distribution and Function by High-Intensity Interval Training. 2016. University of Toronto

5                  TURNER, J. E.  et al. Intensive Exercise Does Not Preferentially Mobilize Skin-Homing T Cells and NK Cells. Medicine and science in sports and exercise,  2016. ISSN 0195-9131.

6                  KRÜGER, K.; MOOREN, F. C. Exercise-induced leukocyte apoptosis. Exerc Immunol Rev, v. 20, n. 20, p. 117-134,  2014.

7         Jin, C.-H., Paik, I.-Y., Kwak, Y.-S., Jee, Y.-S., & Kim, J.-Y. (2015). Exhaustive submaximal endurance and resistance exercises induce temporary immunosuppression via physical and oxidative stress. Journal of Exercise Rehabilitation, 11(4), 198–203. http://doi.org/10.12965/jer.150221

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