Saúde

Como aprender a gostar da prática de atividade física.

Por Elias de França

Eu tenho vontade de correr, de ir para academia, mas sempre adio o início, mesmo quando começo não consigo manter uma regularidade. ”  Este é o seu, o meu, o nosso dilema em relação ao aumento na prática de atividade física? Então vamos pensar no porquê e como isso ocorre, com isso, entenderemos o que pode estar abortando à nossa missão.

Esta série será divindade em três capítulos. Na primeira parte iremos abordar uma realidade comum aos praticantes de atividade física*: Faço atividade física porque alguém me “obriga”. Na segunda parte iremos falar dos mecanismos psicológicos que regulam a nossa empatia em relação a prática de atividade física. Por fim, no terceiro capítulo, abordaremos como pôr em prática esses conhecimentos e, com isso, aprender a gostar de praticar atividade física.

Como faço para aprender a gostar da prática de atividade física?  (Parte 1)

 

Faço atividade física porque “alguém” me “obriga”.

Todas as ações que fazemos na vida é regulado por uma motivação, já toda motivação surge a partir de uma necessidade (sendo elas de origem fisiológica ou psicológicas). Por exemplo, quando buscamos por alimentos, estamos motivados por uma necessidade fisiológica (geralmente pela fome). Mas vamos falar da motivação aplicada ao exercício físico (que tem origens psicológicas) e entender o que nos difere daqueles indivíduos que tem a ida numa academia, no futebol ou no treino de corrida um compromisso do tipo “começo de namoro” (contam os dias e a horas para não faltarem nem chegarem atrasado aos encontros).

Como podemos ter uma relação parecida com o “começo de namoro” na atividade física? Se você não pratica um tipo de atividade física só por praticar (por gostar), mas pratica para obter um benefício (seja de saúde, estética ou a agradar alguém- por exemplo, médico, namorada, etc.), você precisa entender um pouco sobre teoria da motivação, para ser mais feliz na relação com a atividade física.

Bem, primeiramente temos que ter em mente que a execução de uma ação (ir ao encontro da atividade física, por exemplo), em muitos casos, é independente do querer (da motivação), ou seja, podemos querer muito ir ao treino de corrida (para ficar saudável, “bonito”…), mas isso não quer dizer que iremos. As vezes acabamos arranjando uma desculpa (tipo, “fulano não vai, também não vou”) ou outra coisa para fazer (terminar relatórios) para evitarmos a corrida.

Isso ocorre porque a origem da necessidade psicológica que regula a motivação (para fazer algo) pode ser de diferentes fontes, ou seja, existem vários fatores psicológicos que regulam a motivação.  Por exemplo, você pode entrar num grupo de corrida porque quer perder a “barriguinha”; outros podem ir porque colegas os convidaram; porque o médico mandou; outros porque lá é cheio de gatinhos (as); porque querem participar de provas e adoram competir; porque simplesmente adoram correr, simplesmente adoram e eles não sabem dizer direito por quê (mas há uma resposta).

O tipo de motivação que regula a ação é importante, pois a quantidade de esforço que um indivíduo irá empreender para executar uma ação devem ser recompensadas, para satisfazer certas necessidades psicológicas inerentes a ele mesmo, isso é uma lei para todo ser humano (1) (discutiremos no próximo tópico a importância da origem da motivação e sua necessidade de recompensa). Todo o esforço que empreendemos é para sustentar um determinado comportamento, por exemplo, para atingir uma meta determinado por fontes externas ou por nós mesmos, logo, se não há motivação não há esforços.

Figura 1: Esforço em função da dificuldade do desafio (obtenção do sucesso) em baixo, moderado e alto nível do potencial motivacional: Figura extraída e readaptada a partir de Wright (7).

Todo esforço para manter um comportamento é correspondente a dificuldade (dificuldade abaixa=esforço baixo; dificuldade moderada= esforço moderado), veja Figura 1ª e 1b. Em outras palavras, um indivíduo não se esforça além do necessário para satisfazer uma necessidade, porém pode faltar esforço caso a tarefa não lhe pareça tão atraente ou lhe pareça impossível. Por exemplo, se um indivíduo vai fazer caminhada no parque por causa da (o) namorada (o), ou por causa dos colegas que o chamam, é quase certo que se estes o avisarem que não vão a próxima caminhada, certamente ele também não irá (ou seja, não há motivo para ir a caminhada, então não precisa exercer um esforço desnecessário).  Digamos que o convite seja para corrida, neste caso, a namorada do indivíduo é bem superior a ele em termos de habilidade e capacidade para esta atividade. Com isso, durante as sessões ele sempre fica para “trás” nas corridas (pois a namorada também é competitiva). Nesta situação, o indivíduo irá desistir aos poucos (com desculpas e etc.) de realizar esta atividade. Isso ocorre porque o ser humano sempre evita realizar atividades nas quais possuem habilidades fracas, principalmente quando há alguém percebendo a sua incapacidade (7). Pois a percepção de dispêndio de esforço é relativamente alta (7), tendo em vista nenhum retorno psicológico positivo (1). Por outro lado, um indivíduo que se sente bem durante a atividade e que aquela prática o agrada muito (isso geralmente acontece quando ele escolhe aquela atividade, ele se percebe altamente competente durante a sua execução, além do ambiente lhe parecer agradável), ele sempre sentirá a necessidade de praticar aquela ação, para agradar a si próprio.

Do ponto de vista racional, é incoerente um indivíduo parar de praticar atividade física e aumentar o seu risco de sofrer um infarto (2-6), da mesma forma, isto ocorre também com os fumantes (sabe que fumar faz mal, mas não para de fumar, apesar da vontade racional de parar de fumar). Isso se dá porquê nós só aplicamos esforço para manter um comportamento quando sentimos que aquele esforço será recompensado. Por exemplo, se um indivíduo esquece do sentimento de susto do seu médico, além de estar incutindo na mente que aquilo (infarto) não irá acontecer com ele, inconscientemente este indivíduo sentirá que o comportamento/esforço (fazer exercício físico regular) é demasiadamente dispendioso em vista dos benefícios (que ele esqueceu ou que tenta apagar/burlar na própria mente), veja, a Figura 1c.

Por outro lado, um indivíduo que vai a corrida para agradar a namorada (com medo de desagradá-la, ou querendo impressioná-la), neste caso, enquanto ele se sentir cobrado (para ficar em “forma”) certamente ele não irá parar de treinar (porque ele acha que irá frustrá-la). Neste caso, a corrida é um esforço que indivíduo tem de empreender para agradar a namorada, o exercício não é um fim, mas um meio.  Digamos que ele tenha de agradar a namorada com outros esforços, então, a corrida de longe não excede o potencial motivacional deste indivíduo, pois ele é capaz de exercer muito mais esforço para agradá-la (veja Figura 1d e Figura 2). Entretanto, não queremos agradar ninguém, queremos realizar a atividade física e agradar a nós mesmo! Isso é possível? Digo que sim! Então vamos ao próximo tópico, e entender como quais mecanismos psicológicos que guiam (“adoçam”) esta relação!

Figura 2: Exemplo de tipo de motivação extrínseca: Fonte: Extraído da Aula da Profª Marlene N. Silva, da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade de Lisboa, Portugal.

Em resumo, percebemos que só praticamos atividade física se algo nos estimula a fazê-la (nos motive), e que, a manutenção deste comportamento (o sucesso) é proporcional ao tamanho da nossa capacidade de empreender esforço (Fig. 1a e 1b) para obtermos recompensas psicológicas positivas. O esforço só é proporcionalmente dispendido para atingir o sucesso se o indivíduo perceber uma real possibilidade de obtenção de sucesso (em tarefas aparentemente impossível, os esforços são baixos, Fig. 1c), ou se aquele sucesso vale a pena (por exemplo, ir a uma caminhada para agradar a namorada, sem ela está junto não vale a pena o esforço).

 

*utilizamos o termo atividade física aqui como sinônimo de atividade física com objetivo de melhorar do condicionamento físico.

Referências:

  1. Edmunds J, Ntoumanis N, Duda JL. Helping your clients and patients take ownership over their exercise: Fostering exercise adoption, adherence, and associated well-being. ACSM’s Health & Fitness Journal. 2009;13(3):20-5.
  2. Farrell SW, Finley CE, Grundy SM. Cardiorespiratory fitness, LDL cholesterol, and CHD mortality in men. Med Sci Sports Exerc. 2012;44(11):2132-7.
  3. Gupta S, Rohatgi A, Ayers CR, Willis BL, Haskell WL, Khera A, et al. Cardiorespiratory Fitness and Classification of Risk of Cardiovascular Disease Mortality. Circulation. 2011;123(13):1377-83. doi: 10.1161/circulationaha.110.003236.
  4. McAuley PA, Artero EG, Sui X, Lee D-c, Church TS, Lavie CJ, et al., editors. The obesity paradox, cardiorespiratory fitness, and coronary heart disease. Mayo Clinic Proceedings; 2012: Elsevier.
  5. Pourshahidi LK, Wallace JMW, Mulhern MS, Horigan G, Strain JJ, McSorley EM, et al. Indices of adiposity as predictors of cardiometabolic risk and inflammation in young adults. Journal of Human Nutrition and Dietetics. 2015:n/a-n/a. doi: 10.1111/jhn.12295.
  6. Solomon TPJ, Malin SK, Karstoft K, Knudsen SH, Haus JM, Laye MJ, et al. Association Between Cardiorespiratory Fitness and the Determinants of Glycemic Control Across the Entire Glucose Tolerance Continuum. Diabetes Care. 2015;38(5):921-9. doi: 10.2337/dc14-2813.
  7. Wright RA. Refining the Prediction of Effort: Brehm’s Distinction between Potential Motivation and Motivation Intensity. Social and Personality Psychology Compass. 2008;2(2):682-701. doi: 10.1111/j.1751-9004.2008.00093.x.
  8. Silva MN, Themudo Barata JL, Teixeira PJ. Exercício físico na diabetes: missão impossível ou uma questão de motivação? Revista Portuguesa de Cardiologia. 2013;32:35-43.
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