Saúde

Como aprender a gostar da prática de atividade física, PARTE 3

Por Elias de França

Nesta terceira e última parte (desta série) resolvi abordar a visão do professor (do treinador), por dois motivos: 1º a fim de mostrar como um professor deve visualizar e nortear o seu trabalho (claro, no que diz respeito a este tópico), e; 2º a partir da leitura deste tópico, como aluno, será possível perceber quais fatores estão desestimulando a sua prática (à própria prática, o professor ou o ambiente?).

 

Aprendendo a gostar da prática de atividade física

Comportamentos e ações são levados a ser cometidos por fatores motivacionais. Por exemplo, como profissionais de Educação Física, sabendo dos nossos objetivos para com o aluno, temos que fazer com que o aluno adquira a aderência à prática regular de atividade física com um fim nela mesmo, ou seja, gosto pela prática (i.e., motivação intrínseca). Não devemos promover à prática, somente alertando-o, por exemplo, do fato de eles precisarem melhorar o seu perfil metabólico para diminuir o seu risco de propensão a doenças cardiovasculares, melhoras das capacidades físicas, para uma melhor qualidade de vida (i.e., motivação introjetada), etc. Não que nós queiramos que ele seja um ignorante com relação a isso, pelo contrário, mas que além do conhecimento dos benefícios da prática regular de atividade física o traz, também haja uma motivação intrínseca pela atividade.

Digamos que um aluno possui uma motivação para a prática de exercícios referenciada na sua aparência estética (e.g., musculação), para tal, possui como referências estereótipos de “personalidades” consideradas esteticamente “dentro” dos padrões de beleza. Nesse sentido, este aluno pratica este exercício físico somente para mudar o seu corpo; há momentos que passa dias sem praticar, porque se sente cansado daquela atividade (porque acha maçante).

Nesse sentido, podemos perceber que a motivação para a prática de atividade física do aluno não possui fatores qualitativas, ou seja, não tem uma característica intrínseca (ou próxima). Essa ação é executada não porquê o aluno a escolheu deliberadamente, mas sim porque ela sente que tem de fazer, ou seja, a motivação desse aluno é uma motivação de regulação extrínseca.

Esse tipo de estratégia funciona (para manter a prática de atividade física), entretanto, à curto prazo, como já citado, não satisfaz as necessidades psicológicas básicas do ser humano, exatamente porque ele não se sente satisfeito naquela atividade, não escolheu deliberadamente realizá-la e provavelmente não acha que a atividade seja desafiante (porque o desafio é mudar o corpo e  o desafio não está na própria atividade, caso de jogar futebol ou vôlei, por exemplo).

Diversos estudos na área da Educação Física, tem mostrado bons resultados que permanecem à longo prazo, quando o profissional aplica estratégias voltadas ao desenvolvimento da motivação de caráter intrínseco. Entretanto, tal estratégia não é somente aplicável à Educação Física, também podem ser adotadas para outras áreas que querem promover mudanças comportamentais. Abaixo, segue algumas diretrizes para como desenvolver a motivação intrínseca do aluno:

Estratégia de intervenção:

As estratégias para desenvolver motivações de características mais intrínsecas para o aluno tem que ser no sentido de satisfazer as três necessidades básicas (clima positivo, autonomia e competências, Figura 3 do tópico anterior).

Parte do processo envolve saber a qualidade da motivação no aluno. Silva et al., (1),  destaca três perguntas que podem facilitar a percepção da motivação, que são:

1- “Por quem, para quem? Pretende descobrir se há pressões externas (p. ex. pressões sociais), para a adoção do comportamento);

2- “Por quê? Quais os objetivos que estão realmente na base da decisão?” Tem o objetivo de fazer com que o indivíduo reflita sobre as suas expectativas quanto ao comportamento;

3- “Como me sinto? Que emoções e pensamentos a atividade me suscita?” Visa a reflexão do aluno sobre o que ele sente em relação a ação do comportamento.

Silva diz que esses indicadores ajudam ao aluno a pensar (avaliar e cuidar) melhor sobre a qualidade da sua motivação. Para Edmunds, Ntoumanis & Duda, (2009), conhecer o tipo de motivação torna-se importante, pois os resultados da prática, como aderência ou “dropout” estão ligados à motivação intrínseca e extrínseca, respectivamente.

 Como criar um ambiente de clima positivo e alimentar a competência e autonomia

Para isso, segundo Edmunds, Ntoumanis & Duda (2), o profissional deverá fazer com que o aluno se sinta integrado e que faz parte daquele meio.  Sendo assim, quando o profissional promove a “alimentação” das necessidades de competência e autonomia, automaticamente cria um ambiente positivo para bons resultados, por exemplo, aderência à prática.

Entretanto para isso, é necessário que o profissional dê ao aluno estrutura, suporte para a autonomia e ter uma boa relação interpessoal como o seu aluno (2). Abaixo, segue exemplos, de acordo com os autores acima, de como o professor pode estar a trabalhar com a aluno a fim de promover motivações intrínsecas do aluno.

 

Suporte para autonomia:

-Dar escolhas ao aluno (p.ex., fazer com que o aluno dê opiniões sobre diferentes tipos de exercícios);

-Perceber a melhoria do aluno (p.ex.,  enaltecer a melhoria conseguida);

– Reconhecer e levar em conta os sentimentos e perspectivas do aluno em relação às atividades (p.ex.,  estar aberto para reclamações e respondê-las de uma maneira positiva);

– Fornecer justificativa significativa  (p.ex., explique por que cada atividade é benéfica e em que áreas de aptidão irá melhorar).

Estrutura:

-Demonstrar uma boa liderança (p.ex., negociar metas no início do trabalho);

-Responder bem e diretamente as perguntas (p.ex., não deixar os alunos com dúvidas sobre certas atividades);

– Fornecer desafios transponíveis (p.ex., trabalhar em um nível que leva os participantes ao máximo, mas não nos que ela é menos capaz, fornecer opções fáceis e difíceis).

Relação interpessoal:

-Dedicar-se ao aluno (p.ex., gastar tempo conversando no início da aula, saber o seu nome e, mostrar prazer com a atividade);

-Empatia com o aluno (p.ex., não fazer o papel de chefe);

-Reconhecer interesse e desinteresse (p.ex., se surgir um problema, discutir e alterá-lo; tentar voltar a envolvê-la na atividade novamente e não manter a atividade, independentemente do ocorrido).

Referências:

 

  1. Silva MN, Themudo Barata JL, Teixeira PJ. Exercício físico na diabetes: missão impossível ou uma questão de motivação? Revista Portuguesa de Cardiologia. 2013;32:35-43.
  2. Edmunds J, Ntoumanis N, Duda JL. Helping your clients and patients take ownership over their exercise: Fostering exercise adoption, adherence, and associated well-being. ACSM’s Health & Fitness Journal. 2009;13(3):20-5.
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