Alimentação / Suplementação

A cafeína corta o efeito ergogênico da creatina?

Por Elias de França & Érico C. Caperuto

A lenda é antiga e ainda viva. Tudo começou na década de 90, quando estudos levantaram a hipótese de que a combinação da suplementação de cafeína com creatina (Cr+Caf) poderia elevar ainda mais o desempenho (Vandenberghe et al. 1996; Hespel et al. 2002; Vanakoski et al. 1998), porém o que eles verificaram, é que quando a creatina é ingerida simultaneamente com a cafeína, o benefício ergogênico da creatina era perdido.

Mais recentemente outros estudos (Doherty et al., 2002; Lee et al., 2011; Lee et al., 2012) apresentaram resultados positivos e satisfatórios para exercícios intervalados de alta intensidade e de tempo até a exaustão.

Em qual estudo acreditar? Bem, após a leitura destes trabalhos podemos afirmar que as diferenças nos resultados destes estudos estão atreladas aos protocolos de suplementação (suplementação errada) e que isso foi determinante para o surgimento do mito (“que a cafeína inibe os efeitos ergogênicos da creatina”).

Por exemplo, quando examinamos os protocolos de suplementação do primeiro estudo que levantou essa questão (Vandenberghe et al., 1996), além do estudo (Hespel et al., 2002), que corrobora com os resultados ergolíticos da combinação Cr+Caf percebemos que os protocolos não são potencialmente ergogênicos. (Cabe salientar que na época ainda não se sabia ao certo qual era as melhores estratégias de suplementação ergogênica tanto para cafeína quanto para creatina, além do fato de ambos estudos serem do mesmo grupo de pesquisa, nesse sentido, não foi má fé dos pesquisadores).

Nos estudos supracitados observamos que no grupo Cr+Caf foi realizado o seguinte protocolo: suplementação de 20g/dia Cr por 7 dias (potencialmente ergogênico!), sendo que a suplementação concomitante de Cafeína (5 mg/kg/dia) foi nos dias 5, 6 e 7, sendo a última dose 20 horas antes do teste de esforço físico (potencialmente ergolítica!). Nesses estudos, foi relatado que o grupo que suplementou somente com Cr obteve uma maior performance que o grupo Cr+Caf, este por sua vez teve uma performance semelhante ao do grupo placebo (ou seja, o efeito ergogênico da creatina foi cortado).

Seria uma surpresa se o grupo Cr+Caf obtivesse um efeito sinergistas nesse protocolo de suplementação, pois o protocolo de suplementação de Cafeína utilizado nesses estudos (Vandenberghe et al., 1996; Hespel et al., 2002) não promove o aumento da performance por dois motivos: 1) devido ao tempo que a cafeína está disponível no plasmas, pois 20hs é um tempo muito longo para se obter efeitos ergogênicos da suplementação de cafeína (Teekachunhatean et al., 2013), além disso, 2) três dias seguidos de suplementação de 5 mg/kg/dia de cafeína, per se, é deletério a performance (Hespel et al., 2002) . É importante lembrar que quando os participantes do estudo de Hespel et al. suplementaram apenas com uma dose de cafeína (20hs antes do teste!), não obtiveram alteração a performance (ou seja, os três dias de suplementação com 5 mg/kg de cafeína foi ergolítico).

caffeine-le-meurEm outro estudo (Vanakoski et al., 1998) que não mostrou efeito ergogênico da suplementação de Cr+Caf, ou mesmo quando elas foram usadas de forma isolada, também apresentam uma estratégia de suplementação ergogênica ineficiente. Vanakoski et al. suplementaram os participantes com 3 x 100 mg·kg-1·d-1 com Cr, por três dias. Este protocole de suplementação de Cr não promove efeito ergogênico significativo, quando que já está estabelecido que 300 mg·kg-1·d-1, no mínimo por 5 dias parece ser o necessário pare se obter benefícios ergogênicos da suplementação de Cr (Hall e Trojian, 2013).

Além disso, a suplementação de cafeína também não foi efetiva no estudo de Vanakoski (1998). Apesar deste protocolo melhorar a performance em testes do tipo time trial (Ganio et al., 2009), tempo até a exaustão (Doherty e Smith, 2005) e contrações voluntária máxima (Warren et al., 2010), o protocolo de esforço utilizado por Vanakoski et al. (que busca verificar se a cafeína melhora o torque em teste de wingate) ainda apresenta resultados controversos (Glaister et al., 2014).

Vamos aos estudos que deram certo (ou seja, quando há efeito sinergista da suplementação Cr+Caf) (Doherty et al., 2002; Lee et al., 2011; Lee et al., 2012). Esses estudos observaram que a suplementação de cafeína promoveu um aumento na performance após a fase de saturação de suplementação de creatina (5-6 dias de 300 mg·kg-1·d-1), no qual ~6 mg·kg-1 de cafeína foi ingerida de forma aguda 1h antes dos testes. Do ponto de vista da literatura, esse seria um protocolo potencialmente ergogênico para as duas suplementações (combinadas ou isoladas). (veja em um outro post do Exerciência, como suplementar eficientemente com cafeína)

Nós concluímos que a suplementação aguda de cafeína pode contribuir ainda mais com o aumento da performance em indivíduos que suplementam com creatina. Entretanto, torna-se necessário cautela para não promover uma suplementação crônica (por exemplo, 5 mg·kg-1·d-1 de cafeína, por três dias consecutivos) de forma a prejudicar a qualidade do trabalho muscular, como evidenciado por Hespel et al., (2002).

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Referências

DOHERTY, M.; SMITH, P. Effects of caffeine ingestion on rating of perceived exertion during and after exercise: a meta‐analysis. Scandinavian journal of medicine & science in sports, v. 15, n. 2, p. 69-78,  2005. ISSN 1600-0838.

DOHERTY, M.  et al. Caffeine is ergogenic after supplementation of oral creatine monohydrate. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 34, n. 11, p. 1785-1792,  2002. ISSN 0195-9131. Disponível em: < https://www.antoniocgomes.com/cms/pdf/08062010143352.pdf >.

GANIO, M. S.  et al. Effect of caffeine on sport-specific endurance performance: a systematic review. The Journal of Strength & Conditioning Research, v. 23, n. 1, p. 315-324,  2009. ISSN 1064-8011.

GLAISTER, M.  et al. Caffeine supplementation and peak anaerobic power output. European journal of sport science, n. ahead-of-print, p. 1-7,  2014. ISSN 1746-1391.

HALL, M.; TROJIAN, T. H. Creatine Supplementation. Current sports medicine reports, v. 12, n. 4, p. 240-244,  2013. ISSN 1537-890X.

HESPEL, P., et al. Opposite actions of caffeine and creatine on muscle relaxation time in humans. Journal of Applied Physiology, 92(2), 2002. pp.513-518.

LEE, C.-L.; LIN, J.-C.; CHENG, C.-F. Effect of caffeine ingestion after creatine supplementation on intermittent high-intensity sprint performance. European journal of applied physiology, v. 111, n. 8, p. 1669-1677,  2011. ISSN 1439-6319.

LEE, C. L.; LIN, J. C.; CHENG, C. F. Effect of creatine plus caffeine supplements on time to exhaustion during an incremental maximum exercise. European Journal of Sport Science, v. 12, n. 4, p. 338-346,  2012. ISSN 1746-1391.

TEEKACHUNHATEAN, S.  et al. Pharmacokinetics of Caffeine following a Single Administration of Coffee Enema versus Oral Coffee Consumption in Healthy Male Subjects. ISRN Pharmacology, v. 2013, p. 7,  2013.  Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1155/2013/147238 >.

VANDENBERGHE, K.,  et al. Caffeine counteracts the ergogenic action of muscle creatine loading. Journal of applied physiology, 80(2), pp.452-457.

VANAKOSKI, J.  et al. Creatine and caffeine in anaerobic and aerobic exercise: effects on physical performance and pharmacokinetic considerations. International journal of clinical pharmacology and therapeutics, v. 36, n. 5, p. 258-262,  1998. ISSN 0946-1965.

WARREN, G. L.  et al. Effect of caffeine ingestion on muscular strength and endurance: a meta-analysis. Med Sci Sports Exerc, v. 42, n. 7, p. 1375-87,  2010.

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